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segunda-feira, 22 de maio de 2017

O que há de errado com as Universidades hoje em dia? Isso pode ser solucionado?*


As faculdades e universidades de hoje tornaram-se centros de doutrinação política de alto custo. Trata-se de um sistema único na histórica do homem, em que aqueles que são doutrinados e mal treinados para o mundo real têm de pagar a seus doutrinadores, seja gastando as economias de suas famílias, seja obtendo empréstimos subsidiados pelo governo. Para assegurar que a doutrinação não desvie muito da linha do politicamente correto, professores e administradores erigiram um sistema de controle, a fim de garantir que somente aqueles que aceitam o “pensamento de grupo” a respeito de injustiças raciais, étnicas, ambientais e econômicas sejam autorizados a ensinar.

Esse sistema de controle começa com quem logra ser admitido na graduação, quais temas de dissertação são aprovados, quem é contratado para o professorado, quem se titulariza e, mais tarde, para alguns poucos escolhidos, quem consegue tornar-se administradores de alta remuneração. Então, apenas para se certificar de que não há falhas no sistema, os professores organizam programas de estudos de gênero e estudos étnicos, para que possam mobilizar os ativistas do campus a atacar quaisquer desertores em suas fileiras. Como outro resguardo para esta gaiola de ferro, burocratas federais impõem e interpretam uma série de regulamentos sobre faculdades e universidades. O Título IX provou ser uma ferramenta eficaz para rachar a dominação masculina sobre os esportes nas universidades e até mesmo um instrumento melhor para forçar o pensamento de grupo no campus.

A “Novilíngua” do Big Brother de George Orwell parece rústica em comparação com a atual compreensão do que seja “liberdade acadêmica”, “comunidade de estudiosos”, “justiça social” e “zonas de liberdade de expressão”.

A “Liberdade Acadêmica” Orwelliana

Por toda a América, as universidades e faculdades estão criando “zonas de liberdade de expressão” e restringindo a liberdade de expressão. Costumava haver uma “zona de liberdade de expressão” chamada América, mas não mais nos campi universitários. Em vez de permitir que professores e alunos manifestem-se livremente na sala de aula ou no campus, os administradores universitários têm adotado políticas para restringir a liberdade de expressão. Evidentemente, o “discurso de ódio” é restringido. A zona pode permitir que um pregador evangélico fale sobre pecado e a Bíblia (cercado por estudantes zombeteiros, na maioria dos casos), mas o discurso que possa ofender estudantes pertencentes a minorias, estudantes muçulmanos, mulheres ou outros grupos favorecidos é realmente proibido. Na sala de aula, o corpo docente fala continuamente sobre política de identidade, sobre como homens brancos e privilegiados oprimem as minorias raciais, sobre como cometeram genocídio contra os nativos americanos, escravizam os africanos, mantiveram as mulheres em suas casas e criaram, sistemas políticos, como a democracia americana, para manter o privilégio branco. Esse tipo de discurso é aceitável e, de fato, encorajado.

O que eles não podem falar, sem ser extraordinariamente cuidadosos, é qualquer coisa que pareça culpar a vítima. Isto significa que os professores têm de caminhar cuidadosamente sobre assuntos relativos a questões raciais, de gênero ou religiosas. Se esses tópicos são levantados em uma “zona de liberdade de expressão” ou na sala de aula, tanto os professores quanto os alunos têm de prefaciar suas observações com uma miríade de qualificações, mostrando que compreendem a complexidade destas questões.

No entanto, a restrição sobre o discurso vai além de apenas pensar duas vezes sobre o que poderia ser dito. A palavra-chave hoje é “micro-agressão”. A fala, a linguagem corporal ou o tom podem ser tomados como “micro-agressão” se um aluno sensível a vê como tal. A presidente do sistema da Universidade da Califórnia, Janet Napolitano, de fato publicou exemplos em seu site do que pode ser considerado comportamento micro-agressivo (http://www.thecollegefix.com/post/22839). Incluídos nos exemplos de linguagem agressiva estão expressões como “Terra de Oportunidade” ou “Ação Afirmativa é racista”. Outros comentários proibidos são: “Todos podem ter sucesso nesta sociedade, se trabalharem duro o suficiente”; “De onde você é?” ou “Onde você nasceu?”; e “Quando eu olho para você, eu não vejo cor”.

Cometer uma micro-agressão é racismo subconsciente, sexismo, privilégio masculino branco, xenofobia e homofobia. As diretrizes supõem que o comportamento “micro-agressivo” pode ser bem-intencionado. Dizer a estudantes do sexo feminino ou negros que, se eles trabalharem duro, podem ter sucesso, sugere que as mulheres e negros que não lograram sucesso carecem de ambição ou são preguiçosos. A lição deve ser que as mulheres que não quebraram o “teto de vidro” ou negros que vivem na pobreza devem culpar as profundas complexidades do racismo, sexismo, hegemonia cultural e privilégio masculino branco, historicamente e hoje.

Para garantir que o corpo docente tenha entendido a mensagem, o sistema da Universidade da Califórnia (UC) organizou sistemas de treinamento de líderes dos docentes ao longo do ano acadêmico de 2014-15 em todos os nove campi da UC. As sessões foram destinadas a ensinar professores sobre como evitar ofender estudantes e colegas, e dedicaram tempo a explicar como contratar um professorado mais diversificado. A suposição é de que discentes de cor e mulheres serão mais sensíveis, porque têm experimentado formas ostensivas e sutis de opressão.

Em seu romance “1984”, o “Big Brother” de George Orwell usa o medo da tortura para quebrantar os pensamentos subversivos de Winston Smith. A “Big Sister” de 2015 não usa tortura física para impor conformidade acadêmica, embora se suspeite que essas sessões de treinamento sobre “micro-agressão” devam ter sido torturantes demais para aguentar. Não se viu nenhuma preocupação quanto à imposição macro-agressiva da administração de uma Universidade custeada com recursos públicos restringindo manifestações comuns de membros do corpo docente.

Devorando os seus?

Laura Kipnis, feminista docente da Northwestern University, em Illinois, chamou a atenção da mídia nacional (americana) quando foi atacada por estudantes de sua universidade por um ensaio que escreveu para a Crônica da Educação Superior, em fevereiro de 2015. Seu ensaio, “A Paranoia Sexual Atinge a Academia” (Sexual Paranoia Strikes Academe), de linguagem extravagante destinada a despertar emoção, defendia professores que namoram estudantes de graduação e pós-graduação. Ela declarou que, quando era estudante, “O abismo entre estudantes e professores não era um fosso cheio de tubarões; um passo em falso não era fatal. Fazíamos festa juntos, bebíamos e ficávamos embriagados juntos, dormíamos juntos. Os professores podiam ser mais velhos e mais realizados, mas você não sentia que poderiam tirar proveito de você por causa disso. Como fariam isso?” Ela objetou que a “paranoia sexual” estava perseguindo a vida universitária, e que abominava isso.

Códigos severos de conduta entre professor e alunos, ela argumentou, têm penetrado todos os aspectos da vida do campus — língua, currículo, discussão acadêmica e vida social. Espera-se que os professores alertem os alunos de que o que venham a ler ou ouvir numa palestra ou discussão em sala de aula pode ser perturbador. Para proteger a sensibilidade dos alunos, os professores são obrigados pelos administradores da universidade a emitir “trigger warnings” — ou “alertas” — sobre materiais dessa natureza. Estudantes aos quais se tenha atribuído a leitura do poeta latino Ovídio, por exemplo, precisam ser alertados de que leriam sobre romanos estuprando mulheres sabinas.

Kipnis mirou, particularmente, a utilização do Título IX para impor esses códigos de conduta. Pouco depois de a administração da Northwestern University emitir seu código de conduta de estudante e professor, o comitê de coordenação Título IX da universidade emitiu uma nova linguagem para esclarecer o código. “Todos recebemos um longo e-mail da comissão”, lembrou Kipnis. “O comitê estava respondendo a uma petição de estudante e governo que exigia que os ‘sobreviventes’ fossem informados sobre os resultados das investigações de assédio sexual”. Ela ressentiu-se particularmente com o uso repetido da palavra “sobrevivente”. “Não seria ‘acusador’ o termo apropriado? Como alguém pode ser acoimado de ‘sobrevivente’ antes do julgamento sobre a acusação — isto é, supondo-se que não queremos predeterminar a culpa do acusado”.

Seu ensaio foi destinado a ser inflamatório, e isso foi. Ela foi atacada em duas direções — protesto estudantil e queixa jurídica. Os manifestantes estudantis começaram a arrastar colchões em redor do campus, sugerindo que Kipnis queria transformar Northwestern em um bordel estudante-professor. O pior estava por vir, entretanto. A defesa de Kipnis de um professor de filosofia que tinha sido julgado não culpado de acusações de agressão sexual levou outros estudantes a apresentar uma queixa fulcrada no Título IX contra ela. Kipnis foi trazida perante um comitê universitário regido pelo Título IX. Não lhe foi permitido o patrocínio de advogado, o direito de chamar testemunhas em seu favor ou o direito de confrontar seus acusadores. As acusações foram descartadas, mas todo o processo cheirou a uma “star chamber”**. Até a progressista Michelle Goldberg, colunista cultural do “The Nation”, achou difícil defender as ações dos alunos. Goldberg concluiu: “A política de libertação ajusta-se incomodamente com a política de proteção”.

O que tornou o episódio tão doloroso para a esquerda foi que Kipnis era um deles. Ninguém duvidava de suas credenciais feministas. Em seu ensaio, ela pediu a castração química de estupradores e celebrou a revolução feminista no ensino superior. Sua defesa dos relacionamentos sexuais entre professores e alunos certamente não emanava de uma perspectiva moral conservadora.

Questões mais profundas: Custo, Qualidade

Enquanto alguns conservadores regozijavam-se com o fato de que a esquerda acadêmica devorava a si mesma, e progressistas preocupavam-se em apoiar ou não o professor feminista ou as ativistas feministas estudantes, as questões mais abrangentes com as quais os administradores e professores universitários deveriam se preocupar dizem respeito à qualidade da educação que as faculdades têm provido a um custo muito alto aos estudantes. O estudante universitário de hoje paga em média cerca de U$ 13.300 (treze mil e trezentos dólares) por ano em uma instituição pública que ofereça cursos de quatro anos. Isto é o dobro do que um estudante universitário pagava ($ 6.800 — seis mil e oitocentos dólares) em 1967. Os custos das faculdades privadas triplicaram durante o mesmo período. Este aumento levou a uma dívida estudantil de mais de U$ 1 trilhão (um trilhão de dólares), criando uma bolha que deveria causar preocupação nacional. O que os alunos estão alcançando, em virtude dessa educação, no mercado global? Não muito, parece.

Um estudo de 2015 realizado pelo Educational Testing Service — ETS (Serviço de Avaliação Educacional) sobre a “geração do milênio” nos EUA, Europa e Japão revela o fracasso de nosso sistema educacional em treinar os futuros trabalhadores para uma economia cada vez mais baseada no conhecimento (Educational Testing Service, America’s Skills Challenge: Millennials and the Future, 2015). Competência em leitura, aritmética e resolução de problemas é essencial para o sucesso em uma economia avançada e complexa.

O estudo do ETS mostra o quão terrivelmente deficientes nossos jovens estão no desenvolvimento dessas habilidades. Os números são surpreendentes:
  • Leitura: os jovens da “geração do milênio” americanos classificam-se abaixo de 15 entre 22 países participantes, acima apenas da Espanha e da Itália.
  • Aritmética: os jovens da “geração do milênio” americanos classificam em último lugar, junto com Espanha e da Itália. 
  • Resolução de problemas: os jovens da “geração do milênio” americanos ocupam o último lugar, junto com a República Eslovaca, a Irlanda e a Polônia.
Os detalhes deste relatório são ainda mais alarmantes. Os americanos da “geração do milênio” nos 90% de desempenho acadêmico obtiveram pontuações mais baixas que seus pares em 15 países, superando apenas a Espanha. Pior ainda, as pontuações dos americanos da geração do milênio com menores níveis de desempenho acadêmico (nos últimos 10%) foram menores do que as de seus homólogos em quase todos os outros países participantes. A faixa etária mais jovem desta geração (16 a 24 anos), aqueles que poderiam estar na força de trabalho até 2065, ficou em último lugar entre os seus pares em aritmética e estava no fim da lista também na resolução de problemas. Estamos formando mais estudantes na faculdade, e gastamos mais do que a maioria dos países europeus na educação pública, mas estamos falhando em treinar nossos filhos para uma economia globalizada e competitiva.

Os orçamentos universitários expandiram-se grandemente desde os anos 60. As demandas dos estudantes, professores e administradores têm contribuído para o custo do ensino superior. Os estudantes de hoje exigem mais do que um único dormitório com beliches. Eles esperam viver em apartamentos no campus. Já não serve uma xícara de café comum na lanchonete local; em vez disso, é preciso tomar café no Starbucks do campus. Eles demandam instalações recreativas sofisticadas, com máquinas de academia, esteiras e bicicletas. Salas de aula com um atril e um quadro-negro não são boas o suficiente. As salas de aula precisam ser inteligentes, com equipamentos que permitam aos professores fazer apresentações em PowerPoint para que os alunos possam aprender visualmente, mesmo enquanto olham para seus computadores ou iPhones em vez de tomarem notas. Tudo isso custa dinheiro.

Os salários dos professores aumentaram mais rapidamente do que os de qualquer outro grupo profissional, exceto os médicos. Um professor de tempo integral em uma instituição pública de cursos de doutorado de quatro anos recebe, em média, U$ 126.981,00 (cento e vinte e seis mil novecentos e oitenta e um dólares). Naturalmente, há grandes disparidades dentro das universidades e entre as universidades. Não obstante, salários mais altos para professores contribuem significativamente para o custo da educação. Professores exigem maiores salários embora ensinem a menos turmas. Enquanto isso, cada vez mais administradores universitários estão recebendo salários em nível corporativo. Somado a isso, estão os altos custos de treinadores e funcionários esportivos.

Os crescentes custos das universidades e da educação superior têm sido subsidiados pelo governo federal através de empréstimos estudantis e bolsas de pesquisa. Estes subsídios federais permitiram que faculdades e universidades aumentassem a taxa de matrícula dos estudantes. É um esquema de pirâmide. Os estudantes assumem dívidas para pagar uma educação universitária na esperança de um trabalho bem remunerado para pagar suas dívidas. Enquanto isso, bilhões de dólares de dívidas de estudantes não pagas constroem a pirâmide bamboleante.

Os administradores respondem à crise

Sob pressão para fazer frente aos crescentes custos, os administradores universitários passaram a expandir sua base de estudantes por meio da educação on-line, enquanto reduzem seus custos trabalhistas. Poucas pessoas na educação superior realmente acreditam que a educação on-line é tão boa, em termos de qualidade, quanto cursos presenciais. A promessa é que a educação on-line vai melhorar. Provavelmente sim, mas há uma grande diferença entre ter uma discussão em sala de aula com alunos reais e uma sala de bate-papo on-line. Conversas individuais com os professores após a aula ou durante as suas horas de trabalho sobre o curso que um aluno esteja fazendo ou sobre planos de carreira são difíceis de replicar em um curso virtual. Conversar on-line não permite tanto em termos de experiência pessoal.

Enquanto expandem a sua base de clientes, as faculdades e universidades estão cortando seus custos trabalhistas através da contratação de professores adjuntos. A titularização é um status declinante na maioria das universidades. Hoje, apenas cerca de 20% de todas as classes são ensinadas por professores titulares. Entrementes, os professores adjuntos têm um incentivo para dar notas mais altas. Alunos com notas mais altas dão avaliações de curso mais favoráveis, aumentando a probabilidade de que o professor adjunto seja recontratado no ano seguinte.

O que pode ser feito?

As faculdades do século XIX eram principalmente privadas e confessionais, protestantes ou católicas. Seu objetivo era treinar seus alunos em caráter moral e liderança. Era comum em faculdades protestantes o presidente da universidade lecionar sobre moral nos seminários que culinam o fim da graduação. O texto primário era Elementos de Ciência Moral, de Francis Wayland (1835). Esse livro tem suas raízes na Escola do Realismo de Senso Comum escocesa, no Cristianismo e “laissez-faire” econômico. O objetivo das faculdades era treinar cidadãos virtuosos.

Não podemos retornar ao passado. A faculdade tal como era no Século XIX está morta, exceto por algumas pequenas faculdades ainda preocupadas com conceitos como virtude, honra e valores mais elevados. Faculdades públicas e privadas, com poucas exceções, estão sob estresse financeiro, especialmente porque os governos têm-lhes cortado o financiamento. Este é um momento perfeito para que os doadores, os ex-alunos e o público insistam para que as universidades se preocupem com a alfabetização cívica e com as contribuições da cultura ocidental (mesmo dentro de um contexto global). Ex-alunos, doadores e fundações podem atrair administradores e professores para dotar centros e professores que ofereçam cursos tradicionais e introduzam estudantes a Aristóteles, Platão, aos Artigos Federalistas, Abraham Lincoln e autores de grande literatura.

Como Winston Churchill disse certa vez, nunca desperdice uma boa crise. Nessa tempestade perfeita dentro das universidades, foi criado o ambiente para uma real mudança de clima.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Miséria intelectual sem fim*

Por Olavo de Carvalho*

Olavo de Carvalho*
Há quase meio século o mercado editorial brasileiro, e em conseqüência os debates jornalísticos e universitários, cujo alimento de base são os livros, não refletem em nada o movimento das idéias no mundo, mas apenas o apego atávico da intelectualidade local a mitos e cacoetes fabricados pela militância esquerdista para seu consumo interno e satisfação gremial.

Sem a menor dificuldade posso listar mais de quinhentos livros importantes, que suscitaram discussões intensas e estudos sérios nos EUA e na Europa, e que permanecem totalmente desconhecidos do nosso público, pelo simples fato de que sua leitura arriscaria furar o balão da autolatria esquerdista e varrer para o lixo do esquecimento inumeráveis prestígios acadêmicos e literários consagrados neste país ao longo das últimas décadas.

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Esses livros dividem-se em sete categorias principais:
  • 1. Obras essenciais de filosofia e ciências humanas que oferecem alternativas à ortodoxia marxista-desconstrucionista-multiculturalista dominante (por exemplo, os livros de Eric Voegelin, Leo Strauss, Xavier Zubiri, Bernard Lonergan, Eugen Rosenstock-Huessy, Thomas Molnar, David Stove, Roger Scruton).
  • 2. Análises críticas dessa ortodoxia (Hilton Kramer, Roger Kimball, Keith Windschuttle, John M. Ellis, Mary Lefkowitz, Judith Reisman).
  • 3. Pesquisas históricas sobre o movimento esquerdista internacional, baseadas nos documentos dos Arquivos de Moscou e outras fontes recém-abertas, (John Lewis Gaddis, John Earl Haynes, Stephen Koch, Harvey Klehr, R. J. Rummel, Christopher Andrew, Herb Romerstein, Ronald Radosh, Arthur Herman).
  • 4. Livros sobre o esquerdismo hoje em dia, com a descrição dos laços abrangentes que unem ao terrorismo e ao narcotráfico a esquerda chique da grande mídia, das fundações bilionárias e dos organismos dirigentes internacionais (Unholy Alliance , de David Horowitz, Countdowmn to Terror , de Curt Weldon, Treachery , de Bill Gertz, Through the Eyes of the Enemy , de Stanislav Lunev).
  • 5. Livros sobre a perseguição anti-religiosa no mundo e o fenômeno concomitante da expansão acelerada do cristianismo na Ásia e na África (The Criminalization of Christianity , de Janet L. Folger, Persecution , de David Limbaugh, Megashift , de James Rutz, Jesus in Beijing , de David Aikman etc. etc.).
  • 6. Livros sobre questões políticas em discussão aberta nos EUA, com repercussões mundiais mais que previsíveis (Men in Black, de Mark R. Levin, So Help Me God, de Roy Moore, Deliver Us From Evil, de Sean Hannity, Liberalism Is a Mental Disorder, de Michael Savage e, evidentemente, todos os livros de Ann Coulter).
  • 7. Obras essenciais que deram novo impulso ao pensamento político conservador americano e europeu desde os anos 40, como as de Ludwig von Mises, Marcel de Corte, Willmoore Kendall, Russel Kirk, Erik von Kuenhelt-Leddin, William F. Buckley Jr., M. Stanton Evans, Irving Babbit, Paul Elmer More e muitos outros. Neste ponto a ignorância dos nossos professores universitários chega a ser criminosa, como se viu na fraude coletiva do “Dicionário Crítico do Pensamento da Direita” (detalhes em www.olavodecarvalho.org/textos/naosabendo.htm).
Todos esses exemplos são de livros e autores bem conhecidos, amplamente debatidos na mídia americana e alguns na européia. Cada uma das sete classes comportaria mais de cem outros títulos igualmente importantes. Não é exagerado concluir que, se o debate nacional ignora todas essas obras, das duas uma: ou ele é tão rico que pode prescindir delas, fartando-se numa pletora de produtos locais mais substanciosos, ou está tão abaixo do nível delas que não chega nem a suspeitar que devam ser lidas ou mesmo que existam. Não é preciso perguntar qual das duas hipóteses é verdadeira. Qualquer estudante universitário afirmará resolutamente que se trata de autores desconhecidos no meio acadêmico brasileiro, portanto irrelevantes para quem já encheu seu pé-de-meia cultural com a moeda forte de Eduardo Galeano, Rigoberta Menchú e Emir Sader (sem contar, é claro, a ração diária de Foucaults e Derridas, invariável há cinqüenta anos).

Resta ainda o fenômeno, mórbido em último grau, da polêmica de mão única. Sua fórmula é a seguinte: uma discussão qualquer aparece na mídia americana, conservadores e esquerdistas produzem dezenas de livros a respeito e a parte esquerdista é publicada no Brasil sem suas respostas conservadoras, simulando consenso universal em questões que, no mínimo, permanecem em disputa. O establishment cultural brasileiro materializa assim o koan budista de bater palmas com uma mão só. Isso é a norma, sobretudo, nas polêmicas anticristãs. Uma fajutice barata como O Papa de Hitler , de John Cornwell, teve várias edições e toda a atenção da mídia. Os muitos livros sérios que desmantelaram a farsa (sobretudo o do rabino David Dalin, The Myth of the Hitler Pope , e o do eminente filósofo Ralph McInnerny, The Defamation of Pius XII) continuam inacessíveis e não foram nem mesmo mencionados na mídia soi-disant cultural. Ninguém sequer noticiou que o próprio Cornwell, surpreendido de calças na mão, retirou muitas das acusações que fizera a Pio XII. No Brasil elas ainda são repetidas como verdades provadas. Do mesmo modo, os filmes Farenhype 9/11 (www.fahrenhype911.com) e Michael Moore Hates America (www.michaelmoorehatesamerica.com), respostas devastadoras à empulhação fabricada por Michael Moore em Farenheit 9/11 , permanecem fora do alcance do público e não mereceram nem uma notinha nos jornais. Resultado: o mais notório charlatão cinematográfico de todos os tempos, que nos EUA tem fama apenas de mentiroso criativo, é citado como fonte respeitável até nas universidades. É patético. Também cada nova intrujice anti-americana ou anti-israelense de Noam Chomsky é recebida como mensagem dos céus, mas ninguém pensa em publicar a coletânea The Anti-Chomsky Reader, de Peter Collier e David Horowitz, porque é impossível lê-la sem concluir que nem mesmo o Chomsky lingüista, anterior à sua transfiguração em pop star da esquerda, era digno de crédito.

Como esse estado anormal de privação de alimentos intelectuais essenciais vem se prolongando por mais de uma geração, o resultado aparece não só na degradação completa da produção cultural, hoje reduzida a show business e propaganda comunista, mas também nos indivíduos, notavelmente mais embotados e burros a cada ano que passa, quaisquer que fossem antes seus talentos e aptidões. Não hesito em declarar que, pela minha experiência pessoal, qualquer menino educado pela via do home schooling nos EUA está intelectualmente mais equipado do que a maioria dos “formadores de opinião” no Brasil, incluindo os luminares da grande mídia, os acadêmicos e os escritores de maior vendagem no mercado (imagino um debate entre qualquer deles e Kyle Williams, menino gordinho de quinze anos que, sem jamais ter frequentado escola, faz sucesso como colunista político desde os doze – seria um massacre).

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Não é preciso dizer que a essas mesmas criaturas, aliás, incumbe a culpa pelo presente estado de coisas. A instrumentalização – ou prostituição – completa da cultura no leito da “revolução cultural” gramsciana não poderia ter outro resultado, exatamente como anunciei no meu livro de 1993, A Nova Era e a Revolução Cultural.

Por orgulho, vaidade, ressentimento, desonestidade, covardia, sem contar a inépcia pura e simples e a ambição insana de poder absoluto sobre a mente popular, a liderança intelectual esquerdista fechou o Brasil num isolamento provinciano e incapacitante, sem o qual jamais teria sido possível esse paroxismo de inconsciência, essa apoteose da credulidade beócia, sem precedentes em toda a história universal, que foi a aposta maciça do eleitorado brasileiro na idoneidade do PT e na sabedoria infusa de um semi-analfabeto presunçoso.

Mas a consciência, ao contrário do dinheiro, parece fazer tanto menos falta quanto mais escasseia. Convocados quase que simultaneamente pelos dois house organs do esquerdismo brasileiro, que são os cadernos Mais! da Folha de S. Paulo e Prosa & Verso do Globo , para analisar o fenômeno do descalabro petista, os representantes mais badalados daquela liderança, os mesmos que há trinta anos dominam o palco dos debates públicos no país, lançam as culpas em tudo, exceto, é claro, na hegemonia esquerdista e no seu próprio trabalho incansável de carcereiros da inteligência.

No Mais! , César Benjamin tem ao menos o mérito de reconhecer que a corrupção petista não vem de hoje, não é súbito desvio de uma linha de conduta honesta e sim um mal antigo, de raízes profundas. Mas, na hora de explicar suas causas, apela, sem notar que se contradiz, ao subterfúgio usual de acusar a estratégia de acomodação com o “neoliberalismo”, supostamente adotada pelo governo Lula.

Reinaldo Gonçalves, economista da UFRJ, acha que o PT estaria melhor sem Lula, José Dirceu et caterva – intriga de família que, sinceramente, não é da nossa conta.

Paul Singer só se preocupa em recordar os bons tempos e tentar salvar a fé socialista. Sempre tive aliás a impressão de que os socialistas saem direto do pediatra para o geriatra.

O Prosa & Verso não se contenta em ouvir os gurus de sempre. Anuncia mais um ciclo de conferências da série “O Olhar”, “Os Sentidos da Paixão” etc. – organizado pelo indefectível Adauto Novaes – no qual esses campeões de tagarelice comentarão, desta vez, “O Silêncio dos Intelectuais”, sugerindo que o Brasil está mal porque eles têm falado muito pouco.

Francisco de Oliveira explicita esse pensamento ao proclamar que a esquerda vem errando porque não trata com suficiente deferência os seus intelectuais – ele próprio, suponho, em primeiro lugar –, usando-os apenas como ornamentos em vez de se curvar às suas sábias lições.

O poeta Antônio Cícero divaga pelo passado histórico, exibindo sua incapacidade de discernir entre a Idade Média e o Renascimento e, quando vai chegando perto do assunto proposto, já acabou o artigo.

Sérgio Paulo Rouanet apela ao dever de “universalidade” dos intelectuais, que ele define como “pensar e agir em nome de todos”, como se a universalidade da verdade dependesse do apoio unânime das multidões e como se aquele dever não consistisse, com freqüência, em defender aquilo que todos rejeitam.

Renato Janine Ribeiro medita um pouquinho sobre “O que é ser intelectual de esquerda?” – decerto a mais interessante das perguntas para uma classe cuja principal tarefa é a contemplação extática do próprio umbigo.

Querem mais? Essas amostras bastam. A vacuidade, a falta de garra para apreender a substância dos fatos, a obscenidade espontânea e quase inocente com que esses sujeitos lambem em público o próprio ego grupal -- tudo isso ilustra, ao mesmo tempo, a causa remota e o seu efeito presente: a total irresponsabilidade intelectual de ativistas ambiciosos desembocou, a longo prazo, numa degradação tamanha, que eles próprios, mergulhados nela, já não conseguem lembrar que a produziram fazendo exatamente o que estão fazendo agora.

domingo, 9 de outubro de 2016

Nova direita passa a ocupar espaço nas universidades*

Professores do ensino superior que se identificam com o pensamento conservador começam a aparecer no meio acadêmico

Por Augusto Diniz*

É comum ouvir em con­versas de amigos, discussões ou na internet que o meio acadêmico é tomado pelo pensamento de esquerda, na sua definição política e filosófica. Chega a ser corriqueiro ver gente na internet e na mesa de bar dizer que se perde muito tempo da formação universitária com estudos de pensadores como o alemão Karl Marx, autor de livros como “O Manifesto Co­mu­nista” (1848) e “O Capital” (1867).

Essas pessoas, na maioria das vezes, preferiam não se manifestar demais para não serem tachadas de criadoras de caso ou polemizadoras de plantão. Mas, com a popularização da internet, que tem ampliado o número de usuários no Brasil, e a era das opiniões nas redes sociais, em que as pessoas têm buscado mais informação e tempo em discussões sobre todos os assuntos, essa nova direita começou a se manifestar e encontrar em diversos cantos do Brasil simpatizantes de suas ideias e pensamentos.

Outro ponto que facilitou com que os que se consideram conservadores liberais, na direita brasileira, ganhassem mais voz e espaço foi a derrocada da aceitação do Partido dos Tra­balhadores (PT) junto à sociedade a partir dos governos federais de Luiz Inácio Lula da Silva, que em sua quarta eleição para o cargo de presidente da República chegou ao comando da União por duas vezes, entre 2003 e 2010, e sua sucessora, a ex-ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, que foi eleita em 2010 e 2014 para o cargo.

A consolidação do processo de impeachment no dia 31 de agosto de Dilma, com o julgamento final pelo Senado, deu voz à direita, que ganhou força nas eleições municipais de 2016. Um desses exemplos é a votação que recebeu o deputado estadual Flávio Bolsonaro, do Partido Social Cristão, que terminou em quarto lugar na disputa pelo cargo de prefeito com 424.307 votos, 14% da votação válida na capital fluminense.

O Rio de Janeiro, inclusive, deu maior votação no primeiro turno a um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, o senador Marcelo Crivella (PRB), que chegou a 842.201 votos. Ele disputará o segundo turno com um candidato da esquerda carioca, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSol), que obteve 553.424 votos.

Para entender esse momento de crescimento da direita na sociedade, o Jornal Opção conversou com professores universitários que se posicionam com identificação ao pensamento conservador e que defendem o liberalismo na economia.

Divisão da direita

Profª. Cláudia Helena Gomes
Faculdade de Direito/UFG
Mestre em Direito na área de Ciências Penais, a professora Cláudia Helena Gomes, da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás (UFG), diz é preciso dividir bem as duas linhas de pensamento da direita para que não haja confusão. Identificada com a linha conservadora liberal, que valoriza o conservadorismo nos costumes e defende a economia liberal, Cláudia Helena explica que nem toda a direita atual é assim. “Há também os libertários, que também são liberais na economia, mas defendem uma sociedade livre da figura do Estado.”

Na definição entre a direita conservadora e a direita libertária, Cláudia Helena acredita que um dia a direita libertária enxergará que o conservadorismo pode ser o melhor caminho para o mundo. Para ela, o problema ao estudar pensadores de direita é que não se vê muito essa discussão enquanto estudante, quando se passa rapidamente pelos estudos do escocês Adam Smith e perde-se muito tempo dedicado ao pensamento de Karl Marx, por exemplo.

“Há sempre o estigma de que o liberal, que defende a livre iniciativa de mercado, não se importa com os pobres. O socialismo, onde todo mundo trabalha para o Estado, é o modelo mais explorador. É o exemplo dos cubanos que participam do Mais Médicos, que recebem salários mais baixos e são praticamente escravos, enquanto outros profissionais da mesma área ganham mais pelo mesmo serviço.”

Cláudia Helena cita que a prática de uma sociedade em torno de um senhor feudal, como acontecia na Idade Média, ganha sua continuidade em uma ditadura de esquerda, como a cubana, com a figura central representada em Fidel Castro, com toda uma sociedade a serviço de suas ordens.

O pensamento de direita, seja ele libertário ou conservador, tem ganhado espaço na academia. Tanto que na Faculdade de Direito da UFG já existe o Clube Bastiat, que reúne estudantes das duas alas do pensamento de direita. O nome do grupo de estudos homenageia o economista liberal francês Frédéric Bastiat, que defendia a liberdade da pessoa contra qualquer autoridade, entre elas a representada pelo controle estatal na sociedade.

Desencanto com a esquerda

A professora confessa que já foi de esquerda. “Eu não conheço ex-direitista, mas conheço ex-esquerdista”, observa. Cláudia Helena diz que já se sentiu atraída pelo discurso da luta pela redução das desigualdades sociais. “Não dá para pensar à esquerda depois de começar a ler autores de direita”, considera.

Ela afirma que o momento em que vivemos, de insatisfação com modelos carcomidos de governar, tem possibilitado o surgimento de uma leva de pessoas que têm “rompido esse bloqueio” que o pensamento de esquerda coloca sobre o meio acadêmico. “Eu corro o risco de ser tachada de rótulos como direitista, ser xingada ou usarem certas palavras-gatilho para simplesmente ofender quem pensa de forma diferente.”

Ao mesmo tempo que a professora entende que se estuda muito pouco Adam Smith e o francês Alexis de Tocqueville, logo se dedica bastante tempo a um dos principais pensadores anarquistas, o filósofo francês Denis Diderot. Mas Cláudia Helena afirma que reduzir a discussão intelectual a uma divisão entre direita e esquerda chega a ser muito simplista. Ela defende que o correto hoje seria pensar em quem defende uma economia liberal, com menos controle do Estado sobre a regulação do mercado e os que querem ser tutelados a vida inteira pela figura dos detentores do poder.

Mesmo ao considerar que os li­ber­tários liberais são bastante utópicos ao compreender como possível uma sociedade sem qualquer participação do Estado, a professora descreve que o governo precisa existir, mas em condições e com um tamanho bem menor do que é hoje. “Desde o século 18, na Revolução Francesa, a intenção da esquerda foi a de derrubar o poder existente e suplantar esse controle com um poder ainda maior do que o anterior.”

Ela cita exemplos de diferenças existentes entre o que era praticado na França durante a monarquia e a partir da queda do rei, como a novidade do alistamento obrigatório, pois antes o monarca precisava pagar pelos serviços de combatentes contratados em momentos de guerra. “Hoje se o Brasil entrar em guerra você não tem como fugir, você é obrigado a ir lutar, não há escolha, é uma ordem”, descreve.

Conservadorismo é marca de acadêmicos

Outro momento histórico utilizado por Cláudia Helena para pontuar sua insatisfação com o controle muito amplo do Estado sobre a vida do cidadão é a Inconfidência Mineira. “A revolta de parte da sociedade era pela cobrança de um quarto (1/4) que era roubado pela Coroa. Hoje o estado leva 40% de quem tem rendimento mais alto.”

Para a professora, a presença do Estado na vida das pessoas é tão forte atualmente que muitas vezes o cidadão nem percebe essa atuação em forma de controle. “Uma amiga pagou outro dia pela escrituração de um imóvel de 72 metros quadrados R$ 12 mil. Quem deu esse direito para o Estado? Que contrato social é esse?”, questiona.

Essa atitude governamental — que para ela não seria um erro apenas do PT, mas uma política que acompanhou todos os governos desde a redemocratização com José Sarney (PMDB) —, de mostrar uma “sanha controladora”, aponta como o Brasil é governado por burocratas. “Quando houve o impeachment da Dilma, nós nos perguntamos quem são essas pessoas que representam o povo brasileiro. O País é comandado por pessoas que você nem sabe quem são.”

Para Cláudia Helena, Dilma não foi eleita por ser mulher ou sofreu o processo de impeachment por ser mulher. “Ela foi eleita duas vezes e não teve nada de misógino, por que agora sua destituição é considerada misógina? Ela foi deposta porque é incompetente mesmo. Esse discurso é parte da dialética do Hegel, que muda o discurso de acordo com a necessidade.”

Volta aos costumes

É aí que a direita conservadora defende a busca pelos costumes tradicionais, sejam eles pautados pela moral judaico-cristã, pelos valores da família tradicional ou pelo conhecimento erudito construído ao longo de séculos pela humanidade, desde a filosofia, a economia, as artes e a religião. “É alguém que reconhece que existiram milhares de pessoas antes dela e que não sou eu que vou achar que vou ter uma ideia brilhante que vai ser melhor para todo mundo.”

A ideia geral, na visão de Cláudia Helena, é dar continuidade ao que já deu certo na história da humanidade, ser a ânsia de ser fazer revolução, de buscar uma ruptura drástica. “Nos anos 60 você tinha a esquerda revolucionária e a esquerda moderada. As duas tinham o mesmo objetivo, que era chegar à revolução socialista”, critica.

“Nós nunca tivemos uma experiência de capitalismo de fato no Brasil. O que nós sempre tivemos, desde as capitanias hereditárias, foi um capitalismo de compadrio. No capitalismo de verdade os competentes sobrevivem e quem não é competente não tem espaço.” Essa descrição é baseada no exemplo do fortalecimento econômico dos Estados Unidos, que apostaram no livre mercado, como explica Cláudia Helena.

Prof. Murilo Resende Ferreira
Faculdade Esup
Para o doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e professor da Faculdade Esup, Murilo Resende Ferreira, a importância da liberdade de mercado é a busca pelo desenvolvimento aliada ao conservadorismo. “Só progride quem conserva”, afirma.

Preservação da cultura

De acordo com Murilo, pensar o conservadorismo apenas pelo viés da moral é algo muito pequeno, já que essa linha de pensamento se define pela preservação da arte, literatura, filosofia e do conhecimento considerado mais elevado. “A sociedade moderna está brincado com coisas que ela não conhece direito.”

Murilo defende que o conhecimento pressupõe uma estruturação definida, com base na motivação espiritual, desde a filosofia grega. “A preservação da religião de um povo também se faz importante”, define. Ele vê o momento que vivemos como de perda do simbolismo em todas as representações da sociedade.

“Não existe uma grande civilização sem religião”, diz o doutor em Economia. De acordo com Murilo, quando na Europa o laicismo começou a barrar a religião em qualquer forma de ensino começou o processo que coloca a humanidade “à beira de se autoaniquilar”. “A cultura para se manter forte precisa ser preservada.”

No Brasil, Murilo aponta que o primeiro erro foi a busca pela centralização do país ao transferir a capital para Brasília. “Descentralizar o poder beneficia a população. Um dos exemplos de derrocada é essa necessidade errada do Estado de tentar controlar o porte de arma na sociedade. Desarmar a população e desvalorizar a força das famílias reunidas ameaçam o desenvolvimento.”

Murilo cita o exemplo americano do livre armamento da população como uma prova da menor interferência do Estado na sociedade. “Um erro no pensamento político moderno foi acreditar que o Estado centralizador poderia garantir uma sociedade melhor”, critica. Para ele, o poder ab­so­luto do Estado produziu líderes to­talitaristas como Lenin, Stalin e Hitler.

Prof. Jean-Marie Lambert
PUC-GO
Pós-doutor em Ciência da Reli­gião, doutor em Direito Inter­nacional e professor da Pontifícia Univer­sidade Católica de Goiás (PUC-GO), o belga Jean-Marie Lambert assume que, em grande parte de sua carreira acadêmica, “equivocadamente” passou uma visão de esquerda do mundo aos seus alunos. “Não se fala mais na contrapartida dos deveres, a pessoa já nasce querendo saber dos seus direitos apenas.”

O resgate defendido por Jean-Marie é do conhecimento, que foge do pensamento mágico, anterior ao pensamento científico, do qual, na visão dele, o mundo passou a caminhar novamente, a passos largos no obscurantismo. “Com toda evolução você vê uma negação de tudo, desde o conceito de família com protetora da cidadania.”

Aborto

Jean-Marie, Cláudia e Murilo condenam o aborto como um crime contra a vida. “É uma pessoa”, defendem os três. Sobre a frase “meu corpo minhas regras”, o pensamento é parecido, de que não se trata da vida das pessoas que defendem a liberdade de decisão sobre o que fazer com a própria vida, mas a existência de outra pessoa a partir da fecundação do óvulo.

“Esse feto, no direito, já tem a proteção na discussão da herança. Como ele não é vida, mas tem direitos? Se trata sim de uma pessoa”, defende Cláudia Helena. De acordo com Murilo, os seres mais frágeis devem ser protegidos. “Pela questão moral, não se deve permitir o aborto para se respeitar a valorização da vida.” Para ele, aprovar o aborto seria uma forma de colocar a sociedade em declínio.

Homossexualidade

Para Cláudia Helena, uma pessoa que segue a doutrina da igreja, de acordo com a moral judaico-cristã, ama o pecador, mas não defende o seu pecado, quando o assunto é a homossexualidade. Ela cita Jean-Jacques Rousseau para criticar a ideia de que o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe. “Um homem que teve vários filhos com a lavadeira e botou todos no orfanato diz isso. Eu peco, eu erro, eu tenho que melhorar todo santo dia. A gente chega pecador e busca a salvação.” Ela explica que gosta da pessoa, mas não aprova o crime que ela comete.

Murilo defende que a sociedade não pode institucionalizar e igualar o casamento e adoção de crianças para casais gays pela justificativa do amor entre duas pessoas. “A família gay nunca foi adotada com algo sistemático. Será como impor algo de cima para baixo.” Ele diz que a perpetuação da espécie, com a produção de filhos, vem da formação de um casal entre homem e mulher.

Na visão de Murilo, a abertura no sistema jurídico para permitir o casamento entre dois homens, por exemplo, pode se estender um dia à aceitação da poligamia na lei. No caso da adoção, ele afirma que a maior parte dos abusos sexuais é cometida por homens e que “isso também tem um viés homossexual”. “Um casamento de dois homens duplica a chance de abuso infantil no caso desse casal adotar uma criança. Chamam isso de arranjo familiar, o próximo passo é discutir a pedofilia como algo natural.”

Retorno ao eixo

Jean-Marie avalia que o pêndulo da liberdade se tornou libertinagem. “Esse conservadorismo é a volta do bom senso. É preciso de gente que bata o pé no chão. Quem sabe com a queda do PT isso não aconteça e gente pare de ver a sociedade sair do controle.”

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