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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Miséria intelectual sem fim*

Por Olavo de Carvalho*

Olavo de Carvalho*
Há quase meio século o mercado editorial brasileiro, e em conseqüência os debates jornalísticos e universitários, cujo alimento de base são os livros, não refletem em nada o movimento das idéias no mundo, mas apenas o apego atávico da intelectualidade local a mitos e cacoetes fabricados pela militância esquerdista para seu consumo interno e satisfação gremial.

Sem a menor dificuldade posso listar mais de quinhentos livros importantes, que suscitaram discussões intensas e estudos sérios nos EUA e na Europa, e que permanecem totalmente desconhecidos do nosso público, pelo simples fato de que sua leitura arriscaria furar o balão da autolatria esquerdista e varrer para o lixo do esquecimento inumeráveis prestígios acadêmicos e literários consagrados neste país ao longo das últimas décadas.

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Esses livros dividem-se em sete categorias principais:
  • 1. Obras essenciais de filosofia e ciências humanas que oferecem alternativas à ortodoxia marxista-desconstrucionista-multiculturalista dominante (por exemplo, os livros de Eric Voegelin, Leo Strauss, Xavier Zubiri, Bernard Lonergan, Eugen Rosenstock-Huessy, Thomas Molnar, David Stove, Roger Scruton).
  • 2. Análises críticas dessa ortodoxia (Hilton Kramer, Roger Kimball, Keith Windschuttle, John M. Ellis, Mary Lefkowitz, Judith Reisman).
  • 3. Pesquisas históricas sobre o movimento esquerdista internacional, baseadas nos documentos dos Arquivos de Moscou e outras fontes recém-abertas, (John Lewis Gaddis, John Earl Haynes, Stephen Koch, Harvey Klehr, R. J. Rummel, Christopher Andrew, Herb Romerstein, Ronald Radosh, Arthur Herman).
  • 4. Livros sobre o esquerdismo hoje em dia, com a descrição dos laços abrangentes que unem ao terrorismo e ao narcotráfico a esquerda chique da grande mídia, das fundações bilionárias e dos organismos dirigentes internacionais (Unholy Alliance , de David Horowitz, Countdowmn to Terror , de Curt Weldon, Treachery , de Bill Gertz, Through the Eyes of the Enemy , de Stanislav Lunev).
  • 5. Livros sobre a perseguição anti-religiosa no mundo e o fenômeno concomitante da expansão acelerada do cristianismo na Ásia e na África (The Criminalization of Christianity , de Janet L. Folger, Persecution , de David Limbaugh, Megashift , de James Rutz, Jesus in Beijing , de David Aikman etc. etc.).
  • 6. Livros sobre questões políticas em discussão aberta nos EUA, com repercussões mundiais mais que previsíveis (Men in Black, de Mark R. Levin, So Help Me God, de Roy Moore, Deliver Us From Evil, de Sean Hannity, Liberalism Is a Mental Disorder, de Michael Savage e, evidentemente, todos os livros de Ann Coulter).
  • 7. Obras essenciais que deram novo impulso ao pensamento político conservador americano e europeu desde os anos 40, como as de Ludwig von Mises, Marcel de Corte, Willmoore Kendall, Russel Kirk, Erik von Kuenhelt-Leddin, William F. Buckley Jr., M. Stanton Evans, Irving Babbit, Paul Elmer More e muitos outros. Neste ponto a ignorância dos nossos professores universitários chega a ser criminosa, como se viu na fraude coletiva do “Dicionário Crítico do Pensamento da Direita” (detalhes em www.olavodecarvalho.org/textos/naosabendo.htm).
Todos esses exemplos são de livros e autores bem conhecidos, amplamente debatidos na mídia americana e alguns na européia. Cada uma das sete classes comportaria mais de cem outros títulos igualmente importantes. Não é exagerado concluir que, se o debate nacional ignora todas essas obras, das duas uma: ou ele é tão rico que pode prescindir delas, fartando-se numa pletora de produtos locais mais substanciosos, ou está tão abaixo do nível delas que não chega nem a suspeitar que devam ser lidas ou mesmo que existam. Não é preciso perguntar qual das duas hipóteses é verdadeira. Qualquer estudante universitário afirmará resolutamente que se trata de autores desconhecidos no meio acadêmico brasileiro, portanto irrelevantes para quem já encheu seu pé-de-meia cultural com a moeda forte de Eduardo Galeano, Rigoberta Menchú e Emir Sader (sem contar, é claro, a ração diária de Foucaults e Derridas, invariável há cinqüenta anos).

Resta ainda o fenômeno, mórbido em último grau, da polêmica de mão única. Sua fórmula é a seguinte: uma discussão qualquer aparece na mídia americana, conservadores e esquerdistas produzem dezenas de livros a respeito e a parte esquerdista é publicada no Brasil sem suas respostas conservadoras, simulando consenso universal em questões que, no mínimo, permanecem em disputa. O establishment cultural brasileiro materializa assim o koan budista de bater palmas com uma mão só. Isso é a norma, sobretudo, nas polêmicas anticristãs. Uma fajutice barata como O Papa de Hitler , de John Cornwell, teve várias edições e toda a atenção da mídia. Os muitos livros sérios que desmantelaram a farsa (sobretudo o do rabino David Dalin, The Myth of the Hitler Pope , e o do eminente filósofo Ralph McInnerny, The Defamation of Pius XII) continuam inacessíveis e não foram nem mesmo mencionados na mídia soi-disant cultural. Ninguém sequer noticiou que o próprio Cornwell, surpreendido de calças na mão, retirou muitas das acusações que fizera a Pio XII. No Brasil elas ainda são repetidas como verdades provadas. Do mesmo modo, os filmes Farenhype 9/11 (www.fahrenhype911.com) e Michael Moore Hates America (www.michaelmoorehatesamerica.com), respostas devastadoras à empulhação fabricada por Michael Moore em Farenheit 9/11 , permanecem fora do alcance do público e não mereceram nem uma notinha nos jornais. Resultado: o mais notório charlatão cinematográfico de todos os tempos, que nos EUA tem fama apenas de mentiroso criativo, é citado como fonte respeitável até nas universidades. É patético. Também cada nova intrujice anti-americana ou anti-israelense de Noam Chomsky é recebida como mensagem dos céus, mas ninguém pensa em publicar a coletânea The Anti-Chomsky Reader, de Peter Collier e David Horowitz, porque é impossível lê-la sem concluir que nem mesmo o Chomsky lingüista, anterior à sua transfiguração em pop star da esquerda, era digno de crédito.

Como esse estado anormal de privação de alimentos intelectuais essenciais vem se prolongando por mais de uma geração, o resultado aparece não só na degradação completa da produção cultural, hoje reduzida a show business e propaganda comunista, mas também nos indivíduos, notavelmente mais embotados e burros a cada ano que passa, quaisquer que fossem antes seus talentos e aptidões. Não hesito em declarar que, pela minha experiência pessoal, qualquer menino educado pela via do home schooling nos EUA está intelectualmente mais equipado do que a maioria dos “formadores de opinião” no Brasil, incluindo os luminares da grande mídia, os acadêmicos e os escritores de maior vendagem no mercado (imagino um debate entre qualquer deles e Kyle Williams, menino gordinho de quinze anos que, sem jamais ter frequentado escola, faz sucesso como colunista político desde os doze – seria um massacre).

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Olavo de Carvalho
Não é preciso dizer que a essas mesmas criaturas, aliás, incumbe a culpa pelo presente estado de coisas. A instrumentalização – ou prostituição – completa da cultura no leito da “revolução cultural” gramsciana não poderia ter outro resultado, exatamente como anunciei no meu livro de 1993, A Nova Era e a Revolução Cultural.

Por orgulho, vaidade, ressentimento, desonestidade, covardia, sem contar a inépcia pura e simples e a ambição insana de poder absoluto sobre a mente popular, a liderança intelectual esquerdista fechou o Brasil num isolamento provinciano e incapacitante, sem o qual jamais teria sido possível esse paroxismo de inconsciência, essa apoteose da credulidade beócia, sem precedentes em toda a história universal, que foi a aposta maciça do eleitorado brasileiro na idoneidade do PT e na sabedoria infusa de um semi-analfabeto presunçoso.

Mas a consciência, ao contrário do dinheiro, parece fazer tanto menos falta quanto mais escasseia. Convocados quase que simultaneamente pelos dois house organs do esquerdismo brasileiro, que são os cadernos Mais! da Folha de S. Paulo e Prosa & Verso do Globo , para analisar o fenômeno do descalabro petista, os representantes mais badalados daquela liderança, os mesmos que há trinta anos dominam o palco dos debates públicos no país, lançam as culpas em tudo, exceto, é claro, na hegemonia esquerdista e no seu próprio trabalho incansável de carcereiros da inteligência.

No Mais! , César Benjamin tem ao menos o mérito de reconhecer que a corrupção petista não vem de hoje, não é súbito desvio de uma linha de conduta honesta e sim um mal antigo, de raízes profundas. Mas, na hora de explicar suas causas, apela, sem notar que se contradiz, ao subterfúgio usual de acusar a estratégia de acomodação com o “neoliberalismo”, supostamente adotada pelo governo Lula.

Reinaldo Gonçalves, economista da UFRJ, acha que o PT estaria melhor sem Lula, José Dirceu et caterva – intriga de família que, sinceramente, não é da nossa conta.

Paul Singer só se preocupa em recordar os bons tempos e tentar salvar a fé socialista. Sempre tive aliás a impressão de que os socialistas saem direto do pediatra para o geriatra.

O Prosa & Verso não se contenta em ouvir os gurus de sempre. Anuncia mais um ciclo de conferências da série “O Olhar”, “Os Sentidos da Paixão” etc. – organizado pelo indefectível Adauto Novaes – no qual esses campeões de tagarelice comentarão, desta vez, “O Silêncio dos Intelectuais”, sugerindo que o Brasil está mal porque eles têm falado muito pouco.

Francisco de Oliveira explicita esse pensamento ao proclamar que a esquerda vem errando porque não trata com suficiente deferência os seus intelectuais – ele próprio, suponho, em primeiro lugar –, usando-os apenas como ornamentos em vez de se curvar às suas sábias lições.

O poeta Antônio Cícero divaga pelo passado histórico, exibindo sua incapacidade de discernir entre a Idade Média e o Renascimento e, quando vai chegando perto do assunto proposto, já acabou o artigo.

Sérgio Paulo Rouanet apela ao dever de “universalidade” dos intelectuais, que ele define como “pensar e agir em nome de todos”, como se a universalidade da verdade dependesse do apoio unânime das multidões e como se aquele dever não consistisse, com freqüência, em defender aquilo que todos rejeitam.

Renato Janine Ribeiro medita um pouquinho sobre “O que é ser intelectual de esquerda?” – decerto a mais interessante das perguntas para uma classe cuja principal tarefa é a contemplação extática do próprio umbigo.

Querem mais? Essas amostras bastam. A vacuidade, a falta de garra para apreender a substância dos fatos, a obscenidade espontânea e quase inocente com que esses sujeitos lambem em público o próprio ego grupal -- tudo isso ilustra, ao mesmo tempo, a causa remota e o seu efeito presente: a total irresponsabilidade intelectual de ativistas ambiciosos desembocou, a longo prazo, numa degradação tamanha, que eles próprios, mergulhados nela, já não conseguem lembrar que a produziram fazendo exatamente o que estão fazendo agora.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O globalismo e o fim da liberdade*

Por Aluízio Amorim*

Dia desses Diogo Mainardi, do site O Antagonista, disse que havia "desistido" da Folha de São Paulo. Vou muito mais além. Há muito tempo desisti de todos os veículos da grande mídia. Visito os sites da dita "grande mídia" por razões profissionais, nunca para me "informar" no sentido estrito deste vocábulo.

Com o advento da internet, das redes sociais, blogs e sites independentes a busca pela informação se diversificou. Os veículos da grande mídia têm evidentemente todo um aparato técnico e tecnológico, além de equipe de profissionais que lhes conferem a capacidade de cobertura global em cima das ocorrências em qualquer ponto do planeta.

No que respeita a eventos como catástrofes climáticas, descobertas científicas e fatos correlatos os mega veículos de mídia evidentemente são imbatíveis. Mas quando entra o componente político essas empresas de comunicação passam a operar no movediço lodaçal da desinformação, porquanto escamoteiam sempre o que é essencial. A leitura do fato político pelo jornalismo deste século XXI descura sempre o que interessa. E por que isso acontece? Ora, porque nem sempre o acontecimento político corresponde à narrativa pré-estabelecida pelo dogma ideológico esquerdista. Em decorrência disso todo o noticiário e análises políticas formulados por jornalistas da grande imprensa não são apenas capengas, são mentirosos e vão mais além, constituindo pura doutrinação ideológica, lavagem cerebral coletiva, sendo a televisão - ainda - o veículo de mídia mais poderoso e que forma o grosso da opinião pública em nível global.

Tanto é que os fatos mais importantes em nível político são eliminados, minimizados ou edulcorados com uma interpretação que não corresponde à realidade. É o que em inglês é identificado como "media bias", termo muito empregado atualmente nos Estados Unidos durante a campanha presidencial, que significa "mídia de viés" ou "mídia partidarizada" ou ainda tendenciosa e/ou parcial.

Toda a grande imprensa nacional e internacional constitui a "media bias". Isso fica tão evidente que quando esses veículos de comunicação por alguma razão abordam a realidade dos fatos viralizam nas redes sociais.

Um dos assuntos políticos mais importantes da atualidade que é escamoteado de forma criminosa pela grande mídia é o debate sobre o que se conceitua como "globalismo". Tenho me referido a isso aqui no blog de forma frequente porque o assunto é importante. Tão importante que os jornalistas fingem desconhecer, afinal o "globalismo" nada tem a ver com a "globalização" e pode significar um totalitarismo sem precedente que fará picadinho da Civilização Ocidental.

Trocando em miúdos, o "globalismo" é um movimento político de abrangência global que prevê o desmanche das fronteiras ou, no máximo, ajuntar grupos de nações em blocos, como a União Européia, o Mercosul e correlatos, que seriam administrados por uma espécie de governo global dirigido por mega empresários e suas corporações. Se a "globalização" é benéfica em nível econômico, o "globalismo" é letal em termos políticos porque fere de morte a liberdade.

Em grande medida o foco das propostas do candidato Donald Trump é contra o "globalismo". Aliás, é dos poucos políticos que se referem a essa ameaça à civilização ocidental. Nem um mísero jornalista da grande mídia nacional e internacional e o grosso dos políticos e ditos intelectuais, são capazes de se referir a isso embora seja tema obrigatório em qualquer análise e/ou debate político. O maior antagonismo a Trump é justamente por causa disso, por ele se constituir numa ameaça concreta ao diabólico projeto de desmanche da civilização ocidental e da destruição da liberdade individual.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Fedora e o Jornalismo Platônico*


Por Ana Mônica Jaremenko*

Jornalismo Platônico é um tipo de relação intelectual idealizada, no gênero jornalístico, como em um caso de amizade pura, entre dois pensadores.

O termo Jornalismo Platônico deriva de amor "platonicus", usado pela primeira vez pelo filósofo neoplatônico florentino Marsilio Ficino (século XV) como um sinônimo de amor socrático. Diz respeito à admiração focada na beleza do caráter e na inteligência de um pensador, e não no seu aspeto físico.

Assim como o amor platônico, o Jornalismo Platônico não se fundamenta num interesse, e sim na virtude do pensador objeto da admiração. Platão criou também a teoria do mundo das ideias (ou teoria das formas), onde tudo era perfeito e que no mundo real tudo era uma cópia imperfeita desse mundo das idéias. Portanto, qualquer coisa platônica, se refere a algo que seja perfeito, mas que não existe no mundo real, apenas no mundo das ideias.

Jornalismo Platônico é entendido como o exercício do jornalismo por quem não é jornalista, em um relacionamento de diálogo com um pensador admirado, que não se aproxima, não toca, não envolve, é feito de fantasias e de idealização.

Fedora é o heterônimo de Ana Mônica Jaremenko para assuntos de política. Nasceu da ideia de dialogar com o admirado jornalista político Reinaldo Azevedo. A ideia do blog surgiu em 2013 e foi uma resposta ao anseio de manter um arquivo dos comentários feitos por Ana Mônica Jaremenko (Sra. Jaremenko) desde 2009 nos artigos de Reinaldo Azevedo publicados na Veja.com.

* Eu sou Ana Mônica Jaremenko, escritora (poeta e cronista), ativista política, blogueira, gestora de mídias sociais e corretora de imóveis. Administradora, dentre outros, do blog Simplesmente FedoraFedora é meu heterônimo para assuntos políticos.

Graça e paz!

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