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domingo, 9 de outubro de 2016

O incrível caso do país sem direita*

Por Gabriel de Arruda Castro*
[Artigo publicado em 03 abr. 2011]

O espectro político brasileiro é peculiar: na ponta esquerda, tem o jurássico PCO. Passa por socialistas radicais, como o PSOL e o PSTU, pelos comunistas conformados do PPS, pelos social-democratas do PT e do PSDB, pela esquerda verde do PV e se encerra no centro, onde estão PP e DEM. Não há, entre os 27 partidos brasileiros, um que se assuma como direitista. E o recente anúncio da criação do PSD, que se define como social-democrata, abre um buraco no DEM e empurra o eixo da política brasileira ainda mais para a esquerda.

A situação é única. Todas as grandes democracias do mundo têm ao menos um partido conservador forte, como o PP espanhol, o Partido Republicano dos Estados Unidos, a UMP francesa e o PDL italiano. O que teria levado a direita brasileira à lona enquanto, em outros países, como os vizinhos Chile e Colômbia, ela ocupa o poder máximo? Para especialistas e políticos ouvidos pelo site de VEJA, a causa está na herança maldita da ditadura militar.

O primeiro a definir o conservadorismo como uma doutrina política foi o inglês Edmund Burke, no século XVII. Esta corrente política considera que os indivíduos realizam as coisas melhor do que o estado. Que as liberdades individuais devem ser mantidas a todo o custo. E que os valores tradicionais da sociedade devem ser preservados. Nas democracias modernas, o conservadorismo se traduz como uma recusa ao estatismo, a defesa do livre mercado, a proteção da família e a oposição a medidas como a legalização de drogas e do aborto.

No Brasil, o discurso adotado pelos partidos políticos pouco se diferencia: todos adotam termos como "justiça social", "distribuição de riqueza", "igualdade". Obviamente, ninguém é contra essas bandeiras, mas o linguajar denuncia que todos, por razões diversas, adotam um vocabulário de esquerda. Expressões como "livre iniciativa", "responsabilidade individual" e "valores morais" raramente são ouvidas pelos corredores do Congresso ou do Palácio do Planalto. As palavras "social" e "trabalhista" e "socialista" aparecem na maioria dos nomes das legendas. Há apenas um partido que faz referência ao liberalismo – o PSL, que, ainda assim, também se diz social – e nenhum que tenha a expressão "conservador" no nome.

Situações peculiares – O declínio de valores não-esquerdistas se acentuou a partir do governo Lula, quando o PT moderou seu posicionamento e roubou parte do discurso de partidos de centro. Legendas que a princípio eram pouco afeitas às ideias do partido deixaram as diferenças de lado para ingressar na partilha do poder: é o caso do PR, que resultou da fusão do PL com o Prona, do PTB, do PP e do PMDB. Todos se dizem centristas.

O adesismo inflou o bloco governista e juntou a esquerda moderada, a socialistas anacrônicos e a arrivistas de olho na divisão de benesses. Com isso , o PT arrastou consigo praticamente todos os partidos com algum peso. PSDB e DEM permaneceram na oposição mais por questões estratégicas do que programáticas. "Os partidos não se posicionam amparados em raízes históricas, mas em razões conjunturais", opina o cientista político Leonardo Barreto. Para ele, há espaço para o surgimento de uma legenda conservadora no país.

Na falta de uma direita verdadeira, a esquerda acaba inventando a sua própria: "Oposição à direita é um erro grave porque você tem um país com contradições sociais gravíssimas, concentração de renda das maiores do mundo. Quer concentrar mais? À grande maioria isso não interessa", diz o primeiro-secretário do PSB, Carlos Siqueira, para quem a direita trabalha para aumentar a injustiça no país.

Mesmo entre a oposição, o discurso ideológico não é afinado: o presidente do PPS, Roberto Freire, faz uma diferenciação: "Existe a oposição de esquerda, como o PSOL, PSTU e parte do PSDB. Na oposição de direita temos o DEM". O rótulo, no entanto, é descartado pelos próprios democratas.

Trauma da ditadura – Mesmo o autoproclamado centrismo do DEM parece não ser bem recebido no meio político: o partido, em eterna crise de identidade, já se refundou duas vezes e tenta se livrar da pecha de conservador. Da última vez, tentou colar a imagem ao Partido Democrata americano – que, por lá, abriga diversos matizes da esquerda. Ainda assim, vem sofrendo sucessivos golpes, vindos de dentro e de fora. O último deles é o nascimento do PSD de Gilberto Kassab.

O presidente do DEM, José Agripino Maia, reconhece que as bandeiras de seu partido se limitam à defesa do "liberalismo moderno". Ao site de VEJA, ele torceu o nariz quando indagado sobre a discussão de temas que costumam pautar os partidos conservadores, como o casamento gay, o aborto e a liberação de drogas: "Isso não é o carro chefe do partido".

De fato, o DEM não pode ser definido como um partido de direita: bandeiras como a redução da maioridade penal, o endurecimento da punição a criminosos e a oposição ao desarmamento civil não são bandeiras pela qual o DEM se empenha. "No Brasil, a direita é muito vinculada aos regimes totalitários e estamos totalmente fora disso. O que é esquerda? Muro de Berlim, Cuba? Estamos fora disso também", diz Agripino Maia. O antigo PFL, aliás, esteve ao lado do governo petista na defesa do desarmamento da população civil, em 2005.

O deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO) se alinha a bandeiras clássicas do conservadorismo, como a defesa da livre iniciativa, a não-interferência do estado na vida do cidadão e oposição à legalização do aborto. Mas não se assume como direitista. Para ele, o rótulo só faria sentido em países onde há tradição de uma direita democrática, o que não existe no Brasil. "Aqui não existe essa tradição", explica.

Não por acaso, os partidos não foram capazes de sintetizar a oposição do eleitorado brasileiro à legalização do aborto. Na última campanha eleitoral, o tema surgiu quase de forma clandestina, em discussões na internet e nas igrejas. O PSDB de José Serra veio a reboque, aproveitando-se do tema para criticar a petista Dilma Rousseff – que, por sua vez, se apressou em tentar apagar o passado e dizer que nunca havia defendido a legalização do aborto.

Petistas e tucanos, aliás, têm mais similaridades do que diferenças. O líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias, reconhece que a disputa tem mais a ver com a aplicação das ideias do que com a orientação ideológica: "O PT, no poder,adotou as propostas do PSDB. Não inovou. Não há nenhum programa social novo. Ocorre que a execução é que é diferente. Geralmente, a postura do PT é mais promíscua em relação ao Legislativo", afirma.

Falta tradição – Para o cientista político Ricardo Caldas, a rejeição ao rótulo de direitista está ligada à herança negativa deixada pelas legendas conservadores no país. Estes partidos foram contra a abolição da escravidão, contra o fim da monarquia e, na figura da Arena, apoiaram o regime militar. Não é uma ficha corrida das melhores. "Eles tiveram dificuldade de conviver com a democracia e ficaram com essa pecha de antidemocráticos".

O especialista acredita que a direita brasileira não se modernizou. Em vez disso, foi engolida pelo recente pragmatismo de esquerda, difundido pelo PT, ou aderiu ao outro lado por oportunismo eleitoral. Se o espectro político brasileiro vai da extrema-esquerda ao centro, a disputa pelos principais postos de poder está ainda mais restrita. Em 2010, só havia candidatos de partido de esquerda na disputa pela Presidência da República.

sábado, 6 de agosto de 2016

A cultura marxista da cerimônia de abertura da Rio 2016*

Brasil deveria sentir vergonha de sua pobreza, não glamorizá-la.

Por Gabriel de Arruda Castro*
Tradução: Ana Mônica Jaremenko

A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, apesar do previsto, não foi prejudicada por terroristas, bandos de criminosos ou por um ataque maciço de mosquitos transmissores do vírus Zika, foi razoavelmente divertida. A simbologia que o Brasil escolheu para se apresentar ao mundo, no entanto, foi equivocada.

O show apresentado na noite de sexta-feira (5) começou com uma representação em movimento da história do país desde a chegada dos Portugueses. Mas, logo depois ficou claro que, para os organizadores, este foi apenas um preâmbulo para o que consideravam a apoteose do show: meninos da favela que executaram uma versão terceiro-mundista de break dance e um dueto de rapper's - um deles de apenas doze anos falando sobre 'poder feminino'.

Isto não é nenhuma surpresa. Um dos cérebros por trás da cerimônia foi Fernando Meirelles, o cineasta responsável pelo filme Cidade de Deus (2002), aclamado pela crítica como a joia da estética das favelas.

Os intelectuais cariocas são fascinados pela própria pobreza da cidade, como se as favelas fossem algo de que o Brasil deveria sentir orgulho ao invés de vergonha. Imagine se os Jogos Olímpicos de Atenas tivessem destacado a corrupção da Grécia contemporânea em vez da mitologia do país, ou se Pequim decidisse mostrar a sua poluição do ar em vez de a grandeza da China.

A pobreza não representa o Brasil. Nossa esperança é que não haja nem pobreza nem favelas no Brasil do futuro. Mas qual a fonte em que os marxistas culturais tropicais obtêm sua "mitologia"? Assim como a violência contra os negros (reais ou imaginários) é parte integrante da narrativa cultural contínua para a esquerda nos EUA, do mesmo modo a pobreza desempenha um papel semelhante para a esquerda no Brasil.

Não é por acaso que a cerimônia realizada para a Rio 2016 não faça nenhuma referência a qualquer coisa que possa ser visto como erudita ou de alguma forma ligada à tradição europeia (por exemplo, a magnífica arquitetura de Aleijadinho, as óperas de Carlos Gomes, ou a música clássica moderna de Heitor Villa- Lobos).

Os discípulos brasileiros da Escola de Frankfurt só conhecem duas leis:
  • O único tipo de cultura que importa é a cultura popular.
  • A única cultura popular que importa é o que se encaixa na luta ideológica de construção de um "novo mundo".

É por isso que, na cerimônia de abertura, o mais popular tipo de música no Brasil foi completamente ignorado. O sertanejo, que nasceu nas áreas rurais e ainda é a única forma de música apreciada em todas as regiões desse país continental, sem distinção.

Cultura e Tradição de Bela Vista
Arte Naif, de Helena Vasconcelos¹.
Goiás, Brasil.
Apesar de ter sido adulterada pela indústria da música nos últimos anos, a música sertaneja ainda é a melhor representação da alma do povo brasileiro: pessoas trabalhadoras que valorizam a família e a tradição cristã. Desculpe, mas o brasileiro médio não é um boêmio que vive a beber uma caipirinha em Copacabana.

A cerimônia poderia ter apresentado, por exemplo, um dos cantores sertanejos mais populares, Sergio Reis, que canta sobre um pobre pai que criou sete filhos, sendo um deles adotivo. Nos dias finais do pai, o filho adotivo acaba por ser o único que se preocupa mais sobre ele:
"Meu Deus protejaos meus seis filhos queridosMas foi meu filho adotivoque a este velho amparou."
Poderia também ter destacado "Romaria", uma canção popular de Renato Teixeira que retrata a devoção espiritual profunda do homem católico comum.
"Me disseram, porém, que eu viesse aquiPra pedir em romaria e precePaz nos desaventosComo eu não sei rezar, só queria mostrarMeu olhar, meu olhar, meu olhar."
Em vez disso, o que o mundo viu esta sexta-feira foram performances de um apologista da maconha conhecido (Marcelo D2), a falsa Beyoncé cujas canções raramente falam de algo além de sexo (Anitta), e uma antiga escola de esquerda (Gilberto Gil, que pelo menos tem algum talento).

Adicione-se a isso alguma pregação de mudança climática, e a noite estava completa.

Após o aquecimento global no show, o comentarista brasileiro anunciou orgulhosamente que a pira olímpica da Rio 2016 é "a menor na história, por isso vai causar o menor impacto ambiental possível".

Enquanto isso, no mundo real, as autoridades locais não conseguiram nem mesmo despoluir as águas da Baía de Guanabara para torná-la razoavelmente mais seguro para os atletas que irão competir nela.

E adivinha? As favelas, que os esquerdistas querem ter certeza de permanecer favelas sempre, são a principal razão para isso, uma vez que é impossível oferecer saneamento decente nessas condições.

Os marxistas culturais do Terceiro Mundo querem certificar-se de que o Brasil nunca será grande.

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